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O que separa um relatório ESG de um ativo de reputação?

  • 4 de ago.
  • 7 min de leitura

Atualizado: há 19 horas

Por que a maioria das empresas já sabe reportar mas poucas sabem o que fazer com o que reportam


Durante anos, a elaboração de relatórios ESG foi tratada como um exercício de prestação de contas. Hoje, esse cenário mudou. Em um ambiente marcado por exigências regulatórias crescentes, maior pressão de investidores e uma sociedade cada vez mais atenta aos impactos das empresas, publicar um relatório de sustentabilidade tem se tornado uma prática consolidada entre grandes organizações.


Segundo o Global Corporate Sustainability Report 2025, da OCDE, cerca de 12.900 empresas divulgaram informações de sustentabilidade em 2024, representando 91% da capitalização de mercado das companhias listadas no mundo, um salto em relação aos 86% registrados em 2022. (OCDE, 2025)


O avanço não é apenas quantitativo. O mesmo levantamento mostra que a governança em torno do tema amadureceu: em 2024, o conselho de administração supervisionava formalmente questões climáticas em 70% das empresas por capitalização de mercado, ante 53% em 2022. (OCDE, 2025)


Um estudo mais recente, o State of Sustainability Reporting 2025, da Global Reporting Initiative (GRI), analisou 14.682 empresas listadas com faturamento superior a US$ 250 milhões em 132 jurisdições e constatou que 87% delas publicaram um relatório de sustentabilidade. Esta é a pesquisa mais abrangente do gênero já realizada. (GRI, 2025)


Entre as 250 maiores empresas do mundo (o chamado G250), a KPMG constatou que 82% já incluem informações de sustentabilidade em seus relatórios anuais, e que 77% delas adotam os padrões GRI como referência, a estrutura mais utilizada globalmente para reporte não financeiro. (KPMG, 2024)


Os números demonstram que reportar tornou-se padrão de mercado e, agora, o verdadeiro diferencial é outro: o que a empresa faz com esse relatório depois que ele é publicado. É justamente aí que reside a diferença entre um documento de compliance e um ativo de reputação.


O relatório existe para muito mais do que atender investidores

Historicamente, os relatórios de sustentabilidade surgiram como instrumentos de transparência voltados a investidores, acionistas e demais públicos financeiros. Com o amadurecimento da agenda ESG, sua função evoluiu: hoje, o relatório responde a demandas de reguladores, clientes, colaboradores, fornecedores, comunidades, organizações da sociedade civil, parceiros comerciais, instituições financeiras e candidatos que desejam compreender como determinada empresa conduz seus negócios.


Mais do que um documento técnico, ele representa uma declaração pública de prioridades, compromissos e escolhas estratégicas. É um retrato da organização — ou, talvez de forma ainda mais precisa, um raio X. Porque, quando bem elaborado, evidencia não apenas resultados, mas também maturidade de gestão, riscos, desafios, oportunidades e o nível de integração entre as diferentes áreas da empresa.


O maior valor do relatório acontece antes mesmo de sua publicação

Existe um aspecto pouco discutido sobre os relatórios ESG: eles são, provavelmente, um dos poucos projetos corporativos capazes de mobilizar praticamente toda a organização. Durante meses, equipes de sustentabilidade, financeiro, jurídico, recursos humanos, compliance, operações, compras, comunicação, relações com investidores e alta liderança trabalham juntas para levantar informações, validar indicadores, revisar processos e construir uma narrativa comum.


Em empresas que ainda operam em silos, esse processo costuma produzir um efeito extremamente positivo. Pela primeira vez, áreas diferentes precisam conversar sobre temas que antes estavam desconectados. Descobrem sobreposições de iniciativas. Identificam lacunas. Percebem responsabilidades que não estavam claramente definidas. Compreendem melhor como suas decisões impactam outras áreas do negócio.


Sob essa perspectiva, o relatório se torna um poderoso exercício de integração organizacional — talvez um dos maiores que uma empresa realize ao longo do ano.
O problema é que, depois do lançamento, quase tudo isso desaparece

Após meses de trabalho intenso, o relatório finalmente é publicado. Há um comunicado para a imprensa, uma publicação nas redes sociais e, depois disso, o documento costuma ser arquivado na área de Relações com Investidores ou Sustentabilidade do site institucional.

É um paradoxo: empresas investem centenas de horas de trabalho, envolvem dezenas de profissionais e produzem um dos diagnósticos mais completos sobre sua estratégia para, poucas semanas depois, transformar todo esse conhecimento em um PDF raramente revisitado. Na prática, o relatório passa a cumprir apenas sua função regulatória — mas poderia cumprir uma função muito maior.


Um relatório não deveria encerrar um projeto. Deveria inaugurar uma estratégia de comunicação

Cada capítulo de um relatório contém histórias, indicadores, aprendizados e evidências capazes de alimentar a comunicação corporativa durante todo o ano.


  • Uma meta climática pode originar uma entrevista com especialistas.

  • Um case de diversidade pode se transformar em conteúdo para employer branding.

  • Resultados sociais podem abastecer apresentações comerciais. Indicadores de governança podem fortalecer diálogos com investidores.

  • Projetos ambientais podem gerar pautas para a imprensa.

  • Temas materiais podem inspirar séries de artigos, podcasts, webinars, vídeos curtos, newsletters e campanhas internas.


Em vez de produzir apenas um documento anual, a empresa passa a construir uma narrativa contínua. E é justamente essa continuidade que fortalece a reputação.
O mesmo relatório precisa conversar com públicos diferentes

Outro erro frequente é imaginar que todos os stakeholders desejam consumir exatamente o mesmo conteúdo. Não desejam. Investidores procuram compreender riscos, estratégia e geração de valor no longo prazo. Clientes querem saber se estão se relacionando com uma empresa ética e responsável. Colaboradores buscam coerência entre discurso e cultura organizacional. Fornecedores precisam entender critérios de atuação. Comunidades querem conhecer os impactos locais. A imprensa busca dados confiáveis e evidências. Candidatos avaliam propósito e ambiente de trabalho.


Cada um desses públicos faz perguntas diferentes. Consequentemente, a forma de apresentar as informações também deveria ser diferente. O relatório continua sendo a principal fonte de informação, mas não precisa, e nem deveria, ser o único formato de comunicação.


Empresas que já compreenderam esse movimento


Natura — o relatório como plataforma permanente

Desde que passou a adotar as diretrizes de Relato Integrado do IIRC, a Natura consolidou seu site institucional como peça central de comunicação de desempenho, com conteúdo ampliado, interatividade e links entre documentos. Seu relatório anual mais recente segue essa lógica: apresenta o desempenho financeiro e os avanços da companhia rumo à meta de se tornar um negócio 100% regenerativo até 2050, servindo de base para desdobramentos ao longo do ano. (Natura, 2025)


Unilever — conteúdo organizado por tema, não por documento

A Unilever segue lógica semelhante ao estruturar grande parte de suas informações de sustentabilidade em um hub digital organizado por temas — nutrição, direitos humanos, integridade nos negócios, segurança de produtos — em vez de obrigar diferentes públicos a navegar por um único relatório extenso. Investidores, consumidores, parceiros e pesquisadores encontram assim, de forma mais rápida, o recorte que lhes interessa. (Unilever, 2026)


Patagonia — a honestidade como ativo de credibilidade

Em novembro de 2025, a Patagonia publicou seu primeiro Impact Report — encerrando anos sem um relatório de sustentabilidade consolidado. O documento, de cerca de 130 páginas, abre com a frase: "Nothing we do is sustainable" ("Nada do que fazemos é sustentável"). Ao reconhecer publicamente seus próprios paradoxos — como o fato de cerca de 85% de seus produtos ainda não terem uma solução de fim de vida —, a marca reforçou transparência e credibilidade em vez de discurso publicitário. A repercussão do relatório mostrou que reputação não se constrói apenas destacando conquistas, mas também reconhecendo aquilo que ainda precisa evoluir. (Forbes, 2025)


Os três casos demonstram um ponto em comum: o relatório não representa o fim da conversa. Ele é apenas o começo.


O cenário regulatório está empurrando os relatórios para a materialidade

Esse movimento de dar mais vida ao relatório também é reforçado por uma mudança regulatória recente. Em dezembro de 2025, as instituições da União Europeia fecharam acordo político sobre o chamado Pacote Omnibus I, que simplifica a CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive) e reduz significativamente o número de pontos de dados obrigatórios exigidos pelas ESRS (European Sustainability Reporting Standards) — mantendo, porém, a exigência de avaliação de dupla materialidade. O objetivo declarado é priorizar dados quantitativos e informações realmente relevantes para os stakeholders, em vez de descrições narrativas extensas. (Mattos Filho, 2025)


Na prática, o mercado está caminhando na mesma direção defendida neste artigo: relatórios mais enxutos e centrados em materialidade, com o excedente de conteúdo — e de valor estratégico — sendo capturado por outros formatos de comunicação ao longo do ano.


Quando um relatório se torna um ativo de reputação?

A resposta não está na quantidade de páginas, nem no framework adotado, nem na sofisticação do design. Um relatório se torna um ativo reputacional quando deixa de ser apenas um documento de prestação de contas para assumir um papel estratégico dentro da organização.


Quando conecta áreas que antes trabalhavam isoladamente. Quando orienta decisões internas. Quando serve de referência para lideranças. Quando fortalece a comunicação com clientes, colaboradores, fornecedores, investidores e sociedade. Quando alimenta conteúdos durante todo o ano. Quando preserva conhecimento institucional. Quando traduz estratégia em linguagem acessível. E, principalmente, quando aumenta a confiança dos stakeholders.


No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja quantos indicadores uma empresa divulgou ou qual padrão utilizou para estruturar seu relatório, mas se, após esse relatório continuou gerando valor após ser publicado.


Se permaneceu esquecido em uma página do site corporativo, cumpriu uma obrigação importante de transparência. Mas, se passou a orientar decisões, integrar áreas, inspirar narrativas, fortalecer relacionamentos e ampliar a confiança dos diferentes públicos, ele deixou de ser apenas um relatório ESG. Transformou-se em um ativo agregador da organização, capaz de conectar estratégia, comunicação e cultura.


Em um cenário em que a confiança se tornou um dos principais diferenciais competitivos das empresas, talvez esse seja o maior papel que um relatório possa desempenhar: deixar de registrar reputação para começar, efetivamente, a construí-la.



Turbinas eólicas em colinas verdes para relatório ESG.

Referências


OCDE. Global Corporate Sustainability Report 2025. Outubro de 2025. oecd.org/en/publications/2025/10/global-corporate-sustainability-report-2025

Global Reporting Initiative (GRI). The State of Sustainability Reporting: Global Trends in the GRI Standards 2025. globalreporting.org/news/news-center/gri-is-top-choice-for-sustainability-reporting-worldwide

KPMG. Survey of Sustainability Reporting 2024 — The move to mandatory reporting. kpmg.com/xx/en/our-insights/esg/the-move-to-mandatory-reporting

Natura. Relatório Anual Natura. natura.com.br/relatorio-anual

Unilever. Sustainability hub. unilever.com/sustainability

Forbes. Why Patagonia Never Released An Impact Report Until Now. Novembro de 2025. forbes.com/sites/oliviapinnock/2025/11/26/why-patagonia-never-released-an-impact-report-until-now

Mattos Filho. União Europeia simplifica regras de sustentabilidade — Pacote Omnibus I. Dezembro de 2025. mattosfilho.com.br/unico/ue-regras-sustentabilidade

 
 
 

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