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A Planilha das Agências mostrou que reputação começa dentro da empresa

  • 6 de jul.
  • 4 min de leitura

Há alguns anos, uma crise reputacional costumava começar com uma reportagem, uma denúncia formal ou um posicionamento público mal conduzido. Hoje, ela pode nascer de relatos compartilhados por profissionais que decidiram comparar suas experiências de trabalho.


A repercussão da Planilha das Agências movimenta os bastidores do mercado de comunicação anualmente. Ao reunir centenas de reclamações anônimas sobre salários, lideranças, carga de trabalho, assédio e cultura organizacional, o documento rapidamente extrapolou os limites do mercado publicitário e se transformou em um debate sobre gestão. 

Apesar da impossibilidade de validar individualmente cada depoimento, a dimensão da repercussão revelou uma realidade difícil de ignorar. A reputação de uma empresa também se constrói pelo que seus colaboradores vivenciam e compartilham.


A cultura organizacional tornou-se um fator estratégico de negócios. Se antes a autoridade de uma empresa dependia principalmente da comunicação institucional, agora ela também é resultado da experiência cotidiana de quem faz parte da organização.


Um estudo publicado na revista Comunicação & Inovação analisou 1.570 relatos publicados por profissionais do mercado publicitário em 2024 para identificar padrões nas denúncias. A análise demonstrou que o fenômeno possui massa crítica suficiente para ser visto como um retrato das tensões do setor, e não apenas como casos isolados.


Além de identificar as palavras “burnout”, “mal” e “assédio” como destaques, os autores organizaram parte dos relatos em categorias de dois eixos: 


Gênero 

  • “Cultura machista e misógina”;

  • “Ambiente de trabalho tóxico e abusivo”;

  • “Desigualdade estrutural e falta de representatividade”. 

Raça 

  • “Discriminação na contratação e progressão da carreira”;

  • “Ambiente de trabalho hostil e repressivo”;

  • Iniciativas superficiais de diversidade.


O estudo conclui que a planilha evidencia uma resistência das agências a mudanças estruturais. Apesar da diversidade ocupar cada vez mais espaço no discurso do setor, em eventos e festivais, ela “vive uma fase de ressaca”. 


O ativo que deixa de ser invisível quando a cultura falha

Existe uma tendência de tratar reputação como um conceito abstrato, algo difícil de medir e quase impossível de administrar. Mas essa visão já não corresponde à realidade.


Esse ativo influencia diretamente a capacidade de atrair talentos, conquistar clientes, fechar negócios e enfrentar momentos de crise. O relatório Edelman Trust Barometer 2026 mostra que empresas continuam entre as instituições mais confiáveis no Brasil, com índice de confiança de 67%, atrás apenas do empregador direto, que alcança 80% de confiança entre seus colaboradores


Esses números reforçam a mudança de perspectiva de que, para muitas pessoas, a organização onde trabalham é a principal referência de credibilidade institucional.

Mas a confiança depende da coerência entre discurso e prática. Quando essa coerência desaparece, a reputação deixa de ser um diferencial competitivo para se transformar em um risco estratégico.


A cultura organizacional deixou de ser um assunto interno


Talvez o maior ensinamento da Planilha das Agências seja que a cultura organizacional não permanece mais restrita às reuniões de RH ou aos programas de desenvolvimento interno. Ela se tornou pública.


O que chama atenção nas reclamações é o fato de elas apontarem para padrões de gestão, e não para episódios isolados. Quando diferentes profissionais descrevem problemas semelhantes em empresas distintas, a discussão deixa de ser individual e passa a questionar práticas consolidadas do setor.


Isso ajuda a explicar por que o employer branding se tornou parte relevante da gestão de reputação. A experiência do colaborador influencia diretamente a forma como consumidores, parceiros, investidores e futuros profissionais enxergam uma organização.

Nenhuma campanha institucional consegue compensar uma cultura organizacional inconsistente por muito tempo.


Os colaboradores se tornaram um dos públicos mais influentes na construção da reputação corporativa. Eles publicam nas redes sociais, avaliam empregadores, compartilham experiências em plataformas especializadas e participam de comunidades que amplificam essas percepções em uma velocidade impossível de controlar.


O resultado é que comunicação e cultura passaram a operar como duas faces da mesma estratégia.


Confiança nasce da coerência


Os dados do Edelman Trust Barometer ajudam a explicar por que cultura organizacional ganhou tanta relevância. No Brasil, 83% dos empregados acreditam que promover uma identidade e uma cultura compartilhadas é uma das ações mais eficazes para fortalecer a confiança dentro das organizações. Além disso, 82% defendem que empresas formem equipes compostas por pessoas com diferentes visões e ofereçam treinamentos para incentivar o diálogo construtivo diante de conflitos.


A pesquisa também revela que 76% dos brasileiros esperam que CEOs consultem pessoas com diferentes origens e perspectivas ao tomar decisões de negócio, enquanto 75% acreditam que esses líderes devem dialogar de forma construtiva com grupos críticos à empresa. No entanto, apenas 39% consideram que os CEOs cumprem bem esse papel atualmente, evidenciando um descompasso de 32 pontos percentuais entre expectativa e percepção.


Os dados mostram que confiança depende da forma como as lideranças conduzem pessoas, tomam decisões e criam ambientes onde diferentes perspectivas conseguem coexistir.


As organizações estão sendo cada vez menos cobradas por declarações e cada vez mais avaliadas por comportamentos. É justamente por isso que episódios como a Planilha das Agências ganham tanta repercussão. Eles oferecem um raro olhar sobre aquilo que normalmente permanece invisível para quem está de fora: a cultura organizacional.


Agência de comunicação não protege reputações desconectadas da realidade


O papel de uma agência de comunicação estratégica é garantir que a narrativa da marca seja sustentada por fatos. Comunicação pode ampliar credibilidade, fortalecer posicionamentos e criar conexões consistentes com diferentes públicos. Mas não consegue sustentar, indefinidamente, uma reputação que contradiz a experiência de quem vive a organização todos os dias.


A Planilha das Agências talvez seja lembrada menos pelo documento em si e mais por ilustrar o fim da separação entre reputação interna e reputação externa.




 
 
 

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