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Rede social não é onde a reputação se constrói: é onde ela é testada

14 de set.
6 min de leitura

Seis em cada dez brasileiros já deixaram de consumir produtos ou serviços em razão de comportamentos ou posicionamentos de empresas e de seus executivos. Quatro em cada dez deixaram de seguir uma marca depois de notícias negativas. E quase dois em cada dez não apenas interromperam o consumo, mas também criticaram a empresa no ambiente digital.


Os dados fazem parte da pesquisa “Reputação das marcas: o que move o comportamento dos brasileiros”, realizada pela Nexus, em 2024, com 2.006 pessoas nas 27 unidades da Federação. O levantamento mostra que aquilo que se passa nas redes sociais não permanece necessariamente restrito a elas. Uma percepção negativa pode interferir na decisão de compra e estimular novos relatos, críticas e movimentos de boicote.


Essa relação também começa a ser identificada no mercado financeiro. Um estudo baseado em 114 milhões de publicações sobre empresas do S&P 100, entre 2016 e 2022, analisou momentos de aumento atípico das conversas negativas relacionadas a questões ambientais, sociais e de governança. Os pesquisadores constataram que esses episódios estavam associados, em média, a uma redução anormal de 0,29% no retorno das ações, com efeitos mais pronunciados em temas sociais e de governança.


O percentual pode parecer modesto, mas ganha outra dimensão quando aplicado a companhias avaliadas em dezenas ou centenas de bilhões de dólares. Além disso, não representa uma oscilação qualquer: o retorno anormal corresponde à diferença entre o desempenho observado e aquele que seria esperado para a ação no período analisado.

Os dois estudos ajudam a dimensionar uma mudança importante. As redes sociais continuam sendo espaços de comunicação, visibilidade e relacionamento, mas também se tornaram ambientes permanentes de observação. É ali que clientes, colaboradores, jornalistas, investidores e outros públicos comparam o que uma empresa diz com aquilo que ela efetivamente faz.


Nesse ambiente, a reputação não nasce de uma publicação bem elaborada. Ela é colocada à prova por meio dela.


Durante muito tempo, a presença das empresas nas redes foi tratada como uma espécie de vitrine. Ali estavam as campanhas, os lançamentos, as conquistas, os compromissos públicos e as imagens cuidadosamente escolhidas para representar a marca. Essa lógica ainda existe, mas já não explica o papel assumido por esses canais.


Uma promessa feita em uma campanha pode ser confrontada, em poucos minutos, com a experiência real de um consumidor. Um posicionamento institucional pode ser questionado por funcionários ou ex-funcionários. A conduta de um executivo pode alterar a percepção construída pela empresa ao longo de anos.


Em alguns casos, o que se rompe não é apenas a confiança em uma declaração específica, mas a própria ideia que as pessoas haviam formado sobre a marca.


Quando o comportamento do CEO altera o significado da marca


A Tesla é um dos exemplos mais recentes desse fenômeno. Durante anos, a empresa foi associada à inovação, à transição energética e a um consumidor interessado em tecnologia e sustentabilidade. Sua reputação não estava vinculada apenas aos automóveis que produzia, mas também à ideia de futuro que eles representavam.


Com a crescente exposição política de Elon Musk, amplificada por sua atuação no X, parte do público passou a enxergar a empresa de outra maneira. A identidade da Tesla começou a se confundir com as posições políticas, os confrontos e o comportamento de seu principal executivo.


Os efeitos dessa mudança aparecem em diferentes indicadores. De acordo com dados da Caliber divulgados pela Reuters, a consideração de compra da Tesla caiu para 31% em fevereiro de 2024, menos da metade do pico de 70% registrado em novembro de 2021. Em 2024, o valor da marca recuou 26%, passando de US$ 58,3 bilhões para US$ 43 bilhões, segundo a Brand Finance.


A fidelidade dos consumidores norte-americanos também foi afetada. Dados da S&P Global Mobility, publicados pela Reuters, mostram que a taxa de fidelidade à Tesla, que havia alcançado 73% em junho de 2024, caiu para 49,9% em março de 2025. No segundo trimestre daquele ano, as vendas globais da companhia recuaram 13% na comparação anual.


Não seria correto atribuir todo esse desempenho às manifestações de Musk. A Tesla também enfrentou o aumento da concorrência, mudanças no mercado de veículos elétricos e o envelhecimento de parte de seu portfólio. Ainda assim, pesquisas com consumidores e análises de valor de marca indicam que a atuação pública do executivo se tornou um componente relevante do problema.


O caso é especialmente significativo porque mostra uma alteração no significado social da marca. O produto continuava sendo um automóvel elétrico, mas, para parte de seu público original, comprá-lo já não expressava os mesmos valores. As redes sociais não revelaram apenas opiniões controversas de Musk. Elas expuseram uma identidade que muitos consumidores não associavam à Tesla — e que alguns não queriam associar a si mesmos.

Quanto maior a identificação entre uma empresa e seu principal executivo, mais difícil é separar a reputação de ambos. A publicação pode sair de uma conta pessoal, mas seus efeitos não permanecem necessariamente na esfera individual. Para o público, especialmente em momentos de tensão, a fronteira entre a pessoa e a organização quase nunca é tão nítida quanto as empresas gostariam.


A reputação começa muito antes da publicação


A reputação de uma empresa é construída na qualidade de seus produtos e serviços, na maneira como trata seus colaboradores, no relacionamento com clientes e fornecedores, na conduta de suas lideranças e na capacidade de cumprir aquilo que promete. Também passa pela forma como a organização reage quando alguma coisa dá errado, porque nenhuma empresa está livre de falhas, conflitos ou decisões difíceis.


O que as redes fazem é tornar essas experiências visíveis, conectá-las e ampliar seu alcance. Situações que antes poderiam permanecer restritas a uma conversa com o atendimento ou a um pequeno grupo de pessoas agora circulam publicamente e podem reunir outros relatos semelhantes. Quando isso acontece, a empresa deixa de controlar sozinha a narrativa sobre si mesma.


Por isso, não basta manter um calendário de publicações, responder comentários ou acompanhar indicadores de engajamento. Tudo isso faz parte do trabalho, mas não substitui uma estratégia de reputação. Uma marca pode ter presença digital consistente, identidade visual bem cuidada e bons índices de alcance e, ainda assim, enfrentar uma crise de confiança.


A questão central está na coerência entre a identidade que a empresa projeta e aquilo que seus públicos encontram quando olham além da comunicação oficial. Quando existe correspondência entre discurso e prática, as redes podem fortalecer uma percepção construída nas demais relações da organização. Quando essa correspondência não existe, os mesmos canais expõem a contradição.


Também é preciso considerar que as empresas não se expressam somente por meio de seus perfis oficiais. A fala de um executivo, a experiência relatada por um funcionário e até a resposta dada por uma equipe de atendimento podem interferir na leitura pública da marca. Em um ambiente de alta exposição, as fronteiras entre comunicação institucional, cultura organizacional e comportamento individual se tornaram muito mais estreitas.


Isso exige que a gestão da reputação ultrapasse a equipe responsável pelas redes sociais. O profissional que administra esses canais pode identificar sinais, acompanhar conversas e recomendar respostas, mas não tem condições de corrigir sozinho problemas que surgem na operação, na liderança ou nas decisões do negócio. Quando a origem do desgaste está na experiência oferecida pela empresa, a solução também precisa partir dela.


A resposta não corrige o que a empresa não enfrentou


Essa compreensão se torna especialmente importante durante uma crise. Diante do aumento repentino de comentários negativos, ainda é comum que a primeira preocupação seja publicar uma nota ou encontrar uma formulação capaz de conter a repercussão. A comunicação é indispensável, mas nenhuma mensagem resolve uma situação que a organização ainda não compreendeu ou não está disposta a enfrentar.


Antes de responder, é necessário apurar o que aconteceu, dimensionar o impacto, ouvir as áreas envolvidas e decidir quais medidas serão tomadas. Caso contrário, a empresa corre o risco de divulgar uma manifestação rápida, porém frágil, que será imediatamente confrontada por informações, documentos e experiências de quem acompanha o caso.


O silêncio prolongado também pode agravar o problema, mas velocidade não deve ser confundida com precipitação. Uma boa estrutura de comunicação ajuda justamente a reduzir esse intervalo: estabelece responsabilidades, prepara lideranças, organiza fluxos de decisão e permite que a empresa responda com agilidade sem abandonar a precisão.
Nem toda crítica se transforma em crise, assim como a ausência de comentários negativos não significa necessariamente que uma organização possua uma reputação sólida. Pode indicar apenas que ela ainda não foi confrontada em uma situação relevante.
Uma empresa mais preparada conhece suas vulnerabilidades, acompanha as percepções de seus públicos e mantém canais internos capazes de transformar sinais em decisões. Isso envolve escuta, diagnóstico e planejamento, além de uma visão integrada entre comunicação, liderança e operação.

As redes sociais deram velocidade, visibilidade e participação à relação entre empresas e sociedade. Podem aproximar públicos, esclarecer decisões e fortalecer vínculos, mas também revelam, com uma rapidez inédita, inconsistências que antes demoravam mais tempo para aparecer.


É nesse sentido que funcionam como um teste. O resultado não depende apenas da qualidade do conteúdo publicado, mas daquilo que a empresa construiu fora da tela: suas escolhas, suas relações e a confiança acumulada ao longo do tempo. Quando uma conduta até então desconhecida se torna pública, a rede mostra quanto daquela reputação era sustentado pela realidade — e quanto existia apenas na narrativa da própria organização.




Fontes consultadas

 
 
 

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