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Muito além do discurso: por que o ESG será decisivo para o futuro do agro

  • 29 de jun.
  • 5 min de leitura

São as três letras da moda. Em praticamente qualquer conversa sobre o futuro do agronegócio, elas aparecem inevitavelmente: ESG. Estão nos eventos do setor, nos relatórios corporativos, nas apresentações para investidores e, cada vez mais, no discurso das empresas que querem se posicionar como parte de uma produção mais responsável. O problema é que, no meio de tanta adesão ao tema, ficou mais difícil separar convicção de conveniência.


No agro, essa discussão ganha um peso ainda maior. Não falamos aqui de um setor periférico da economia brasileira, mas de uma atividade que responde por uma parcela significativa do PIB, sustenta exportações, movimenta cadeias inteiras e influencia diretamente a forma como o Brasil é visto no exterior. Quando o agronegócio fala de ESG, portanto, está falando de acesso a mercados, competitividade, financiamento, gestão de riscos e, principalmente, da sua licença para operar em um ambiente de exigências cada vez maiores.


Por isso, reduzir essa agenda a uma estratégia de comunicação é um erro. No pilar ambiental — o mais exposto e talvez o mais sensível para o setor — a cobrança é objetiva. Não basta afirmar que o agro é sustentável por natureza porque depende dos recursos naturais. O setor faz parte da solução em muitos aspectos, mas também está no centro de discussões sobre desmatamento, emissões, uso da água, pressão sobre biomas e rastreabilidade da produção. Ignorar essas questões só enfraquece o debate.


Há avanços que merecem ser reconhecidos. A agricultura de precisão reduz desperdícios e melhora a eficiência na aplicação de insumos. Sistemas integrados, como lavoura-pecuária-floresta, recuperam áreas e tornam o uso do solo mais eficiente. As novas tecnologias em nutrição animal e as pesquisas voltadas ao aumento da produtividade por hectare, sem necessidade de expansão de áreas, seguem na mesma direção. Em diversas cadeias produtivas, a rastreabilidade e o monitoramento de fornecedores também evoluíram de forma significativa. Nada disso elimina os desafios, mas demonstra que produtividade e responsabilidade ambiental podem caminhar juntas.


O problema começa quando iniciativas importantes passam a ser usadas como vitrine para esconder uma realidade mais complexa. É nesse ponto que surge o greenwashing. Ele aparece quando uma campanha sobre preservação, carbono ou regeneração ganha mais espaço do que as ações efetivamente implementadas; quando uma iniciativa pontual é apresentada como retrato de toda a operação; ou quando o discurso é mais ambicioso do que os resultados entregues.


No agronegócio, esse risco deixou de ser apenas reputacional. A recente decisão da União Europeia de tirar o Brasil da lista de países habilitados a exportar determinados produtos de origem animal ao bloco demonstrou como a rastreabilidade passou a ser um requisito comercial. A avaliação foi de que o país ainda não conseguiu comprovar os controles exigidos para o uso de antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais.


E esse está longe de ser um caso isolado. As exigências relacionadas à comprovação de origem livre de desmatamento, ao monitoramento de fornecedores indiretos na pecuária, às auditorias sobre resíduos de medicamentos veterinários e à conformidade ambiental e social mostram que a competitividade do agro dependerá cada vez menos do discurso e cada vez mais da capacidade de apresentar informações confiáveis, auditáveis e transparentes. Em outras palavras, já não basta afirmar que a produção é sustentável; será preciso demonstrar isso, do nascimento do animal até a chegada do produto ao consumidor. Transparência deixou de ser um diferencial competitivo e passou a ser condição de permanência em mercados estratégicos.


O mesmo vale para o "S" do ESG, que durante muito tempo ficou em segundo plano no debate sobre o agronegócio. Não existe produção sustentável baseada em relações de trabalho precárias, insegurança no campo ou exclusão de quem faz parte da cadeia produtiva. O componente social envolve condições dignas de trabalho, saúde e segurança, qualificação profissional, sucessão rural, diversidade, inclusão de pequenos produtores e relacionamento com as comunidades.


Também não é possível discutir ESG sem enfrentar um tema que ainda gera desconforto: o trabalho análogo à escravidão. Os casos que continuam sendo identificados mostram que o problema está longe de ser residual. E seus impactos vão muito além do infrator direto. Eles atingem frigoríficos, indústrias, tradings, varejistas e marcas que não conhecem profundamente sua própria cadeia de fornecedores. Em um cenário em que consumidores e investidores observam cada vez mais a origem dos produtos, terceirizar responsabilidades deixou de ser uma estratégia segura. A reputação construída durante décadas pode ser comprometida por um único elo sem controle.


Outro desafio é garantir que a agenda ESG seja inclusiva. É relativamente simples defender padrões elevados quando se olha apenas para grandes operações, com acesso à tecnologia, crédito e assistência técnica. A questão é como levar essa transformação para toda a cadeia, sem excluir pequenos e médios produtores. Se quiser produzir mudanças duradouras, o ESG precisará combinar exigência com apoio, metas com viabilidade e fiscalização com desenvolvimento.


Já o "G", de governança, talvez seja o pilar menos visível e, justamente por isso, um dos mais importantes. É ele que mostra se o ESG está realmente incorporado à estratégia da empresa ou permanece restrito ao discurso institucional. Compliance, auditorias, critérios para homologação de fornecedores, gestão de riscos, canais de denúncia e transparência na divulgação de resultados são os mecanismos que dão sustentação às promessas feitas pelas organizações.


É justamente a governança que separa compromisso de oportunismo reputacional. Uma empresa pode comunicar projetos de regeneração, preservação ambiental, bem-estar animal ou apoio ao produtor. Mas, se não tiver processos consistentes para medir resultados, monitorar sua cadeia e corrigir falhas, o ESG se transforma apenas em vitrine. E vitrine, sozinha, não constrói credibilidade.


Talvez esse seja o principal ponto da discussão. O problema não está em comunicar boas práticas. O problema é comunicar antes de fazer o básico ou transformar exceções em prova de consistência. O agro brasileiro não precisa de menos narrativa; precisa de narrativas sustentadas por evidências. Precisa mostrar, com dados e transparência, como produz, como compra, como monitora fornecedores e como enfrenta seus próprios desafios.


O setor reúne condições para liderar uma agenda ESG robusta. O Brasil possui escala, pesquisa tropical, capacidade de inovação, produtividade e enorme potencial para consolidar uma produção cada vez mais eficiente e sustentável. Mas essa liderança não será construída pela repetição de slogans nem pela tentativa de convencer o mercado de que "o agro já faz muito". Ela dependerá da disposição de enfrentar problemas, corrigir gargalos e ampliar a transparência. Afinal, reconhecer desafios também faz parte de uma boa governança.


No fim, a discussão é menos complexa do que parece. O agronegócio brasileiro já incorporou o ESG ao seu vocabulário. Agora precisa demonstrar que ele também faz parte da rotina das propriedades, das empresas e de toda a cadeia produtiva. Porque a diferença entre protagonismo e greenwashing continua sendo uma só: a coerência entre aquilo que se promete e aquilo que efetivamente se entrega.




 
 
 

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