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Do relatório ao feed: como traduzir a agenda ESG para diferentes linguagens?

  • 21 de mai.
  • 4 min de leitura

Por Luciana Santos Tardioli


Nos últimos anos, o número de empresas brasileiras que produzem relatórios de sustentabilidade cresceu de forma consistente e mensurável. Segundo estudo da PwC Brasil em parceria com o Ibracon, 91% das empresas que compõem o Ibovespa publicaram relatórios com informações ESG, o maior percentual já registrado pela série histórica da pesquisa, acima dos 86% em 2020 e 82% em 2021. 


Outro levantamento do Ibracon, analisando as maiores empresas de capital aberto do país, mostra que 96% dessas companhias já divulgam informações relacionadas a práticas ESG, indicando que o relato deixou de ser exceção e passou a ser prática dominante no mercado brasileiro. 


Esse crescimento não acontece por acaso. Ele reflete a combinação de pressão crescente de investidores, amadurecimento regulatório e maior cobrança da sociedade por transparência, consistência e responsabilidade corporativa. O relatório ESG deixou de ser apenas um diferencial reputacional e passou a ocupar um papel central na estratégia e na governança das empresas.


Esse movimento se intensifica com a evolução da regulação internacional. Em 2025, o Brasil foi listado como um dos 17 países reconhecidos pela IFRS Foundation por já contar com um plano estruturado de adoção dos padrões internacionais de reporte de sustentabilidade desenvolvidos pelo International Sustainability Standards Board (ISSB). 

Os padrões do ISSB se materializam principalmente em duas normas.


IFRS S1 estabelece requisitos gerais para a divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, orientando as empresas a identificar riscos e oportunidades ESG que possam afetar seu valor no curto, médio e longo prazo.


IFRS S2 aprofunda essa lógica ao tratar especificamente das questões climáticas, exigindo divulgações sobre governança, estratégia, gestão de riscos, métricas e metas relacionadas às mudanças do clima. 


Esses padrões dialogam prioritariamente com investidores, analistas e o mercado financeiro, pois conectam sustentabilidade diretamente à performance e à criação de valor. Esse foco os diferencia das normas da Global Reporting Initiative (GRI), que adotam uma abordagem orientada aos impactos da organização sobre a sociedade, o meio ambiente e seus diversos públicos.


GRI e IFRS não competem entre si. Eles se complementam. Enquanto a GRI ajuda a compreender impactos, responsabilidades e relações com múltiplos stakeholders, os padrões IFRS organizam a leitura financeira e estratégica desses mesmos temas para o mercado de capitais.


Essa evolução também aparece de forma clara no estudo Reporting Matters Brasil 2024, conduzido pelo CEBDS com apoio do Grupo Report. A análise de 74 relatórios de sustentabilidade de grandes empresas brasileiras mostrou que a média de qualidade dos documentos evoluiu de 6,7 para 7,8 pontos, indicando maior maturidade no reporte ESG. 

Entre os principais achados estão o fato de que 95% dos relatórios utilizam as diretrizes da GRI59% das empresas já mencionam compromissos com metas de Net Zero e houve um avanço de 14% na adoção da dupla materialidade, conectando impactos socioambientais a riscos e oportunidades financeiras. 


Esses dados reforçam um ponto central. Os relatórios de sustentabilidade se consolidaram como peças claramente multistakeholders. Eles precisam dialogar, ao mesmo tempo, com investidores, colaboradores, consumidores, comunidades, parceiros e reguladores. E é justamente aí que reside o maior desafio. Falar com todos esses públicos em uma única peça é necessário, mas insuficiente.


O relatório precisa ser técnico, robusto e comparável. Mas ele não dá conta, sozinho, de gerar entendimento, proximidade e engajamento com audiências tão distintas. É aqui que o relatório deixa de ser apenas um documento e passa a funcionar como um hub central de comunicação. Eis a pergunta: como fazer?


Do relatório ao ecossistema de comunicação ESG


Um método prático para transformar dados técnicos em diálogo:


1. Curadoria antes de publicação: nem tudo que está no relatório vira conteúdo. Selecione impactos reais, metas alcançadas, decisões estratégicas e histórias humanas.

2. Público definido, linguagem adequada: investidores, consumidores e colaboradores fazem perguntas diferentes. Um mesmo dado pede traduções distintas.

3. Narrativa que organiza: estruture os conteúdos em desafio, ação e resultado. Isso dá clareza e evita discursos genéricos.

4. Tradução por pilar ESG. Ambiental: dados visualizáveis e práticas reais. Social: pessoas, histórias e contexto. Governança: processos, decisões e critérios explicados. Claro que há interconexões entre os pilares. Lembre-se disso e busque explicá-las da melhor forma. 

5. Formatos a serviço do conteúdo. Carrosséis organizam, vídeos mostram, newsletters aprofundam, landing pages estruturam dados e podcasts explicam escolhas. Pensar assim pode ajudar bastante no que "pautar" em cada veículo! 

6. Continuidade e coerência: outro lembrete: o relatório é anual, mas a comunicação é permanente. O valor está na consistência ao longo do tempo.


Quando bem trabalhado, o digital não dilui o relatório. Ele amplia seu alcance e sua capacidade de gerar entendimento. Infográficos ajudam a compreender dados ambientais. Vídeos mostram práticas reais em operação. Depoimentos revelam cultura e decisões. Newsletters aprofundam temas específicos. Páginas interativas organizam indicadores. Podcasts permitem explicar escolhas complexas com mais contexto.


No fim, os relatórios de sustentabilidade estão se tornando mais rigorosos, mais regulados e mais estratégicos. Isso eleva, na mesma medida, a responsabilidade da comunicação.

Cada público se relaciona com o relatório de forma diferente. Investidores analisam risco e consistência. Colaboradores buscam coerência cultural. Consumidores querem entender impacto real. A sociedade observa compromissos e transparência.


A comunicação bem fundamentada é o que permite que uma única base de dados gere múltiplas leituras, sem perder integridade.

 

CHECKLIST | Comunicação ESG bem fundamentada


  1. Antes de publicar qualquer conteúdo derivado do relatório, vale responder:

  2. Esse dado é relevante ou apenas disponível? 

  3. Está claro qual público esse conteúdo pretende atingir? 

  4. A linguagem está adequada a esse público específico?

  5. O conteúdo explica o contexto ou apenas apresenta números? 

  6. Há conexão entre impacto, decisão e resultado? 

  7. O formato escolhido ajuda a compreender ou só chama atenção? 

  8. A comunicação reflete a realidade da empresa, inclusive desafios? 

  9. Esse conteúdo contribui para entendimento, confiança ou diálogo?


Se a maioria das respostas for “sim”, o relatório está sendo traduzido. Se forem “talvez”, ele ainda está sendo apenas replicado. A pergunta que deveria orientar qualquer estratégia é: isso ajuda alguém a entender melhor o impacto real da empresa no mundo? Quando a resposta é sim, o relatório deixa de ser apenas relato e torna-se relacionamento real com seus públicos.





 
 
 

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